Todo ditador merece um trocadilho infame. A seriedade concede importância, solenidade, já o humor nega grandeza ou transcendência. O riso fulmina o mito.
Assim mostra Vladimir Nabokov em “Tyrants Destroyed”. No conto, um personagem que vive sob totalitarismo planeja formas de matar o déspota, mas, ao final da narrativa, tem uma revelação: “O riso me salvou. Percebo que, em meus esforços para tornar o tirano aterrorizante, apenas o tornei ridículo, destruindo-o”.
A queda de Nicolás Maduro é motivo de regozijo não só para venezuelanos, mas para qualquer um que se diga democrata.
Seu governo é uma máquina de infrações de direitos humanos. Fim da liberdade de expressão e de imprensa, prisões ilegais, torturas e assassinatos —sem contar a economia destruída por ideologia esquerdista moribunda, que gerou fome e migração em massa. É uma das maiores crises humanitárias do mundo, e a maior do continente, neste século.
Há de se alegrar com a captura da besta que criou tamanho descalabro, o que não significa aplaudir o intervencionismo tresloucado de Trump. Tal modus operandi é o mesmo de Putin, que ora dizima o povo ucraniano.
Ambas as investidas infringem o direito internacional, e a soberania das nações por ele garantida é necessária —afinal, a própria ideia de permitir que um país saia derrubando os governos dos outros também é autoritária.
Seria melhor se os venezuelanos depusessem seu ditador? Claro. E assim tentaram nas urnas e com protestos desde 2017. Tentaram pedindo ajuda internacional, e os governos petistas do Brasil, maior país da região, continuaram a bajular o caudilho. A ONU e o Tribunal Penal Internacional apontaram crimes contra a humanidade na Venezuela, sem gerar nenhuma ação efetiva.
Maduro caiu, já foi tarde. Se o responsável foi Trump —que, como o maluco caricato, acha que é Napoleão—, é preciso esforço global para que o multilateralismo e o direito internacional não venham a cair de vez. Enquanto as autoridades discutem, celebremos o riso, mesmo que momentâneo, dos venezuelanos.
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