Não basta adotar novas tecnologias. O mercado do futuro vai se reinventar, para superar a virada geopolítica e climática galopante (ou sobreviver a ela). A coisa mudou tanto que exigirá noções de “aversão ao risco” e de “taxa de retorno” mais realistas. O futuro do mercado passa pela atual desconstrução dos mecanismos transnacionais de negócios que se estabeleceram a partir dos anos 1950. Afinal, a Ordem Mundial que emergiu do fim da II Guerra Mundial dependia de certo equilíbrio político e econômico em um novo capitalismo marcado pela bipolarização geopolítica, que parece se fragmentar.
A bem da verdade, as grandes guerras do século XX alcançaram uma escala industrial que exigiu o desenvolvimento acelerado de ferramentas e conhecimentos em logística, novos materiais, fontes de energia, medicina, alimentos, comunicações, processamento de dados e finanças, para citar apenas alguns vetores da redefinição radical do mundo dos negócios – um caso literal de “destruição criadora”. As cadeias de suprimentos, produção, comercialização e transportes assumiram escala mundial, com transações financeiras e comunicações em tempo real. Qualquer pessoa pode obter qualquer produto de qualquer lugar do mundo (desde que tenha dinheiro ou crédito, é claro). Uma globalização sustentada em dois pilares: O medo da ameaça nuclear e o multilateralismo. Tempos de guerra fria e mercado aquecido. E quando o muro de Berlim caiu soterrou as fronteiras mercantis restantes, que ainda mantinham uns 2 bilhões de consumidores da União Soviética e da China fora do jogo.
Agora esse angu desandou. Ucrânia e Gaza, somadas à volta teatral da águia americana, expõem fraturas na geopolítica envelhecida. Alianças como a OTAN, ONU, OCDE e G7 sofrem fadiga de material, carecendo repaginar os pactos originais, ou mesmo a rearrumação dos blocos. Acontece que na base do mundo moderno está o mercado. Há séculos as sociedades evoluem em função das suas necessidades crescentes e das soluções produtivas decorrentes. O aumento da população e da complexidade social levou a uma sedentarização da oferta (agricultura, pecuária, mineração, moradia, trocas etc.) e ao surgimento do Estado, como na Mesopotâmia há uns quatro mil anos.
A coisa se sofisticou na Grécia e Roma para, em seguida, tomar nova forma com o cristianismo e o islamismo costurando o ocidente e oriente. Contudo, os negócios ganharam escala planetária pra valer com as navegações e as colônias no Novo Mundo, apoiadas nas Monarquias Nacionais europeias. Democracia mesmo só veio com a revolução industrial (direitos trabalhistas, bancos, tecnologias e… o aquecimento global). Agora se fala em desglobalizar, no rastro das mudanças climáticas, nacionalismo, retrocessos políticos, descarbonização. Tudo que era sólido desmanchou no ar.
Ainda é difícil definir se quem puxa o trem da história é o povo, o Estado ou o mercado. Se for o mercado, quais setores darão o rumo daqui pra frente: o agro, as terras raras, os bancos, o comércio ou as big techs? E se for o Estado, a locomotiva será o governo, o parlamento ou o aparato de defesa e segurança? Se for a sociedade, quais serão suas novas formas de organização e influência? A resposta passa pela revisão dos parâmetros de risco e de retorno dos investimentos para o mercado do futuro, com efeito direto sobre o trabalho e o consumo, assim como sobre as políticas regulatórias, os instrumentos de fomento e a destinação do gasto público. Segundo os coreanos, “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”.
Felipe Sampaio é cofundador do Centro Soberania e Clima; sócio da Terra Consultoria; atua com grandes empresas, organismos multilaterais e terceiro setor; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; foi Secretário-Executivo substituto no Ministério da Micro e Pequena Empresa; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; foi empreendedor em mineração.
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