Ilê Sartuzi: Mostra troca quadros por contratos de venda - 05/02/2026 - Ilustrada

Em "Contrato", exposição na galeria Luisa Strina, em São Paulo, até 13 de fevereiro, não são pinturas que surgem ao redor de molduras nas paredes. Com cláusulas que se aplicam desde a quadros que ainda não existem, até a morte de seu autor, as obras de Ilê Sartuzi justificam o título da mostra de maneira literal.

Os documentos expostos reforçam o trabalho do brasileiro, que costuma questionar regras do mercado das artes e sistemas que regulam o que circula por galerias e museus. Aqui, esses contratos funcionam como espécie de código-fonte e representam cores, formas, e demais propriedades via regras burocráticas —alguns deles, inclusive, recorrem à matemática para prever o preço em potencial de determinadas peças.

"Há alguns anos investigo relações que sustentam o sistema de arte, sejam questões de mercado e valor, especulação e truques, sejam questões infraestruturais, dinâmicas de poder e estratégias de visibilidade", afirma o artista. "Esses trabalhos deixam esse sistema mais transparente e invertem posições de poder."

Há dois anos, Sartuzi virou assunto global ao furtar uma moeda antiga do Museu Britânico, em Londres, onde vive, e fortaleceu debates sobre a repatriação de artefatos históricos. Registrado por três amigos, o roubo foi publicado como performance e viralizou nas redes sociais, e o objeto foi devolvido pouco após o crime.

Na época, apesar da inversão simbólica entre colonizador e colonizado, o ladrão descreveu o gesto como um simples truque de mágica, feito com as mãos. Em "Contrato", a magia é reconhecida como o resultado de um relacionamento entre duas partes, conforme explica o texto crítico assinado por Pedro Zylbersztajn.

Ao dividir sua reflexão em itens —diagramados como notas de rodapé de um trabalho acadêmico—, ele diz que público e artista conjuram um "feitiço" —juntos, firmam compromisso com uma realidade alternativa, em que, subordinados a obras de arte, atuam segundo comportamentos e ações simbólicas.

"Meu interesse por mágica está justamente no fato de que, apesar da atmosfera mística, tudo não passa de um truque", diz Sartuzi. "É um estudo das possibilidades materiais e de manipulação da atenção."

Nesse sentido, numa das poucas produções da mostra que se diferencia da burocracia documental, uma mão brinca com três copos e esferas de gelo. Em vídeo, ela põe e as retira, repetidamente, dos recipientes, e sugere teletransportes e desaparecimentos. Quem vê se dispõe, talvez, a crer nos gestos do feiticeiro.

Uma voz de fundo, no entanto, recita jargões do universo bancário e propõe um paralelo entre mudanças climáticas da água e oscilações do mercado financeiro. É um modo de borrar as fronteiras que separam as expressões artísticas dos princípios que determinam o consumo massivo de produtos.

Se esse acordo contempla uma relação entre o autor e o público, outro dos contratos estabelece um pacto entre Sartuzi e a própria galerista. Logo na entrada, um documento proíbe Luisa Strina de visitar o espaço da mostra —ela só tem permissão, delimita o papel, para testemunhar visitantes e as suas ações a partir de um monitor em seu escritório.

É nessa tela que a colecionadora testemunha os registros de câmeras instaladas e acessa uma versão digital de "Contratos", alimentada ainda por notícias e eventuais relatos.

A sua maneira, "Furto" também subverte relações entre aqueles que produzem e armazenam obras de arte, hoje mais fáceis de serem adulteradas pela difusão de celulares e registros eletrônicos. Dessa vez, quem assina aprova o fato de que será roubado, por Sartuzi, no futuro. Um visitante sugere outra interpretação —a depender da utilidade que o dono temporário dará ao quadro, não seria ele o verdadeiro criminoso?

"O contrato de furto estabelece uma dramaturgia e coreografia entre eu e a pessoa colecionadora para o resto de nossas vidas, e é aí que acontece o trabalho", diz o artista.

Num gesto mais concreto, ele também faz um corte na parede que separa a sala de exposição do depósito que guarda obras diversas. Uma pintura de Cildo Meirelles é ressignificada por um termo de autorização, que divide uma grade com o quadro do pintor renomado, em faces opostas. É um exercício que reordena, espacialmente, lógicas que ordenam as peças que chegam ou não ao olhar do público.

Para os mais atentos, inclusive, uma obra pendurada no teto retrata um aperto de mãos, símbolo máximo do acordo entre duas partes. Ela vigia os que passam por ali e pode ser vista por aqueles que se dispõem a ir além do olhar horizontal entre o homem e as suas criações.

"O que a exposição faz, justamente, é questionar os diversos papéis que o artista desempenha no contemporâneo", adiciona Sartuzi. "Ela mostra não só a arte como produto, mas o artista como produto."

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