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Trabalho de Gordon Parks, em cartaz em SP, é mergulho na estética e na história de ‘Pecadores’ – 29/01/2026 – Pretos Olhares


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“Pecadores”, o filme que mais recebeu indicações ao Oscar de toda a história da premiação, se passa nos anos 1930, nos Estados Unidos, e é um terror em que a presença de vampiros não é o elemento mais assustador, já que a história é ambientada no Mississippi em um período marcado pela segregação racial e pela violência de grupos supremacistas.

Sucesso de bilheteria, o filme de Ryan Coogler concorre a 16 estatuetas no Oscar 2026, quebrando o recorde que pertencia aos títulos “A Malvada” (1950), “Titanic” (1997) e “La La Land” (2016), com 14 indicações cada um.

Na obra, o horror é usado como ferramenta para discutir a história racial dos EUA —e “Pecadores” o faz sem deixar de lado uma estética que valoriza a cultura negra do período e a complexidade de personagens que ilustram a resistência de quem viveu a segregação na pele.

Os irmãos gêmeos Stack e Smoke, protagonistas vividos por Michael B. Jordan, retornam à sua cidade natal para abrir um bar dedicado à música e feito para receber pessoas negras em momentos de celebração. Na trama, a música assume papel central e se torna quase uma personagem, ao conectar diferentes gerações e fortalecer vínculos entre personagens.

O filme usa a ficção e o terror para mostrar que o racismo não é um desvio ocasional, mas uma presença constante, enraizada na sociedade e que paira sobre corpos e histórias negras. Mas “Pecadores” acerta ao mostrar tudo isso sem deixar de lado a humanidade dos personagens, a complexidade de suas histórias e a profundidade da cultura preta, ali representada pelo blues.

Para quem quer rever o longa antes da premiação, em 15 de março, e quer mergulhar na estética e na história negra do período, vale visitar a exposição “Gordon Parks – A América Sou Eu”, em cartaz no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, até 1º de março. O fotógrafo documentou momentos históricos da luta do movimento negro americano e retratou figuras como Martin Luther King e Malcolm X, de quem era próximo. Seu trabalho é referência para artistas contemporâneos e acadêmicos dentro e fora dos EUA.

A mostra que celebra o trabalho de Parks reúne cerca de 200 imagens, feitas entre as décadas de 1940 e 1970, e passeia pelas principais temáticas tratadas pelo fotógrafo; entre elas está a segregação racial de estados do sul dos EUA —cenário semelhante ao em que vivem os gêmeos interpretados por Jordan.

Certeiro em denunciar a violência racista sem fazer com que pessoas negras sejam reduzidas ao seu sofrimento, o mergulho no trabalho documental de Parks completa a experiência do filme que concorre a 16 estatuetas, e vice-versa.

A narrativa ficcional de “Pecadores” ganha novos contornos ao ser comparada aos registros que Parks fez, por exemplo, na série de imagens “Histórias da segregação no sul” (1956) —em que o fotógrafo retrata o cotidiano de famílias que viviam cercadas por símbolos de violência, como as placas que sinalizavam lugares permitidos apenas para brancos.

Parks, que foi perseguido por nacionalistas brancos ao produzir as imagens, denuncia a brutalidade dos sistemas de dominação sem desumanizar as pessoas retratadas por ele. Nas imagens, resistência e busca por sobrevivência aparecem em cenas cotidianas ao lado de registros de relações com a família e com a comunidade, na bus ca por dignidade e identidade.


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