Rússia reabre teatro destruído que virou símbolo da guerra – 29/12/2025
Três anos, nove meses e 13 dias depois de uma explosão transformá-lo em um símbolo da brutalidade da Guerra da Ucrânia, o Teatro Regional de Drama de Donetsk foi reaberto neste domingo (28) com uma cerimônia que contou com a presença de artistas de Mariupol, cidade ocupada pelos russos no início da invasão de 2022.
Reabertura do Teatro: Um Marco Controverso
“O teatro reabriu suas portas aos espectadores”, declarou o governador indicado por Vladimir Putin para a região, Denis Puchilin, em um comunicado. A reabertura estava inicialmente marcada para a quarta-feira (24), mas foi adiada sem explicações.
O evento provocou críticas em Kiev, mas também causou estanhamento entre os moradores de Mariupol. “É esquisito ter uma festa em um local onde morreram tantas pessoas”, afirmou Pavel, um russo de Rostov-no-Don que se mudou para a cidade no início de 2024.
O Ataque e suas Consequências
Em 16 de março de 2022, três semanas após o início do conflito, o teatro foi destruído em um ataque aéreo amplamente atribuído às forças russas. Moscou, por outro lado, argumenta que a explosão foi causada por integrantes do Batalhão Azov, uma unidade associada ao neonazismo que defendia a cidade.
Antes do bombardeio, moradores haviam escrito no chão à frente do prédio a palavra “crianças”, indicando que o local era utilizado como refúgio. Embora as contas exatas nunca sejam conhecidas, entidades de direitos humanos falam em até 600 mortos.
O Cerco a Mariupol
O cerco à cidade, que durou 82 dias, foi um dos mais dramáticos da guerra. O assalto inicial é retratado no documentário “20 Dias em Mariupol”, que recebeu diversos prêmios. A cidade continua sendo um troféu da tentativa fracassada de Putin de conquistar a Ucrânia rapidamente, e se tornou a vitrine da reconstrução que consome cerca de R$ 60 bilhões anuais dos cofres de Moscou nas áreas ocupadas.
Quando esteve lá no fim de 2024, a Folha observou extensos trabalhos de reforma de prédios e novos bairros surgindo das ruínas: 80% do município, que tinha 500 mil habitantes e agora abriga cerca de 300 mil, foi destruído ou danificado pelos combates.
O custo humano do cerco foi colossal. Enquanto os russos falam em 3.000 civis mortos, os ucranianos citam até 25 mil. A ONG Human Rights Watch estima cerca de 8.000 vítimas.
A Reabertura do Teatro e suas Implicações
O governo de Kiev considera a reconstrução do teatro uma farsa para desviar a atenção de problemas crônicos nas regiões anexadas ilegalmente por Moscou, como a falta d’água na capital homônima da região de Donetsk, controlada por separatistas russos desde a guerra civil de 2014.
A reconstrução do teatro manteve sua fachada e características principais, como a escadaria de mármore e um candelabro de cristal de 2,5 toneladas no hall central.
O Futuro de Mariupol
Não há expectativa realista de que Mariupol volte ao controle ucraniano nas negociações de paz comandadas pelo presidente Donald Trump. A cidade é estratégica, servindo como ponto de ligação entre a Rússia e a Crimeia, que também foi anexada em 2014, em resposta à derrubada do governo pró-Kremlin em Kiev.
A composição da população de Mariupol é muito diferente atualmente, embora não existam estatísticas confiáveis. Muitos moradores antigos partiram, enquanto outros chegaram, vindos da Rússia e de outras áreas ocupadas da Ucrânia, em busca da prosperidade relativa oferecida pelo “boom” da construção civil na cidade.
O Destino da Siderúrgica de Azovstal
Com o teatro reconstruído, Mariupol agora discute o futuro do esqueleto da gigantesca siderúrgica de Azovstal, uma das maiores da Europa, que serviu de refúgio final para os últimos defensores da cidade durante o cerco.
A siderúrgica ocupa quase 10% da cidade, uma área equivalente a São Caetano do Sul (SP), e está repleta de explosivos usados por ambos os lados. Atualmente, é impossível transitar livremente por lá sem correr riscos, e a prefeitura debate se criará um parque ou simplesmente demolirá o local, onde trabalhavam e moravam cerca de 10 mil pessoas.
Conclusão
A reabertura do Teatro Regional de Drama de Donetsk representa um marco polêmico na história recente da Ucrânia e da Rússia. Enquanto Moscou busca mostrar uma imagem de normalidade e reconstrução, a realidade vivida pelos habitantes de Mariupol é marcada por dor, perda e incerteza. O futuro da cidade e de suas infraestruturas, como a siderúrgica Azovstal, continua a ser um tema de intenso debate, refletindo as complexidades e tensões do conflito em curso.
Para mais informações sobre a situação na Ucrânia, você pode acessar o BBC Brasil.