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Queremos sonhar, além de sobreviver – 07/01/2026 – Morte Sem Tabu


A história da minha família materna começa com um basta à violência doméstica. Migraram do Paraná para São Paulo no fim dos anos 1970 para proteger a matriarca Evarista de todos os tipos de violência que sofria do marido, meu avô.

O impulso para a vinda veio do tio mais velho Odair Moreira, que juntou dinheiro ao longo de dois anos dentro de uma garrafa enterrada debaixo da cama —era uma terra batida que servia de chão e esconderijo para sustentar o sonho coletivo de viver, além de sobreviver.

Ao chegar em São Paulo, trabalhou como ajudante geral bem aqui, na Folha. Quando o expediente da limpeza acabava, ele parava em frente à máquina de escrever e, ali, batia o próprio nome, o nome da mãe, dos irmãos —e este sobrenome Moreira que, anos mais tarde, eu utilizaria no mesmo jornal para contar nossa história.


Durante dois anos, juntou o dinheiro necessário para voltar ao Paraná e buscar toda a família. Com roupas e sapatos novos, viajaram de ônibus, trem e fizeram a última parada na estação Júlio Prestes, de onde pegaram um táxi até Perus, bairro no extremo norte de São Paulo onde minha mãe conheceu meu pai, e cá estou.

Vim ao mundo a 6 de junho de 1991, exatos 11 anos depois da morte da minha avó Evarista, que escapou da violência doméstica graças aos filhos, mas foi vítima da violência urbana ao ser atropelada por um homem altamente alcoolizado em uma avenida movimentada do bairro.

Minha avó ficou desaparecida por dias. Meu tio João, sepultador no cemitério Dom Bosco, tomou as rédeas da situação e foi com minha mãe até o Instituto Médico Legal (IML). Os cabelos e a nuca não deixavam negar, era mesmo Evarista.

A história, espiralada, parece uma novela. Minha mãe e meus tios tiveram que sobreviver. Apesar do luto, apesar da solidão em estar em uma cidade grande sem a mãe. Apesar da violência vinda de todos os lados.

Coincidência ou não, nasci no dia da morte da avó, com muita vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Em vez de armas, nasci virada nesse desejo de escrever sobre o luto fundante da história da minha família, atravessado na espinha e no cordão umbilical.

Denunciar a violência doméstica e também reivindicar uma cidade realmente segura para mim e para todas as pessoas, principalmente as mulheres, é a forma que tenho de honrar a memória de minha avó, que conseguiu escapar da estatística do marido violento, mas foi vítima da violência no trânsito.

Só em 2024, mais de 1.400 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil. Segundo dados da SSP (Secretaria da Segurança Pública estadual), São Paulo bateu recordes, chegando à marca de 233 casos de feminicídio de janeiro a novembro —maior marca desde o início da série histórica, em 2018. Ao menos, quatro mulheres foram mortas por dia. As agressões contra mulheres também bateram a maior marca do acumulado desde 2012, com 61.474 queixas nas delegacias. A violência afeta a todas, mas a intersecção entre gênero e raça também aparece aqui: as mulheres negras são as principais vítimas de feminicídio, representando 63% dos assassinatos.

Ao ouvir vítimas de violência e reescrever esses dados, me sinto paralisada e triste. Vivemos uma pandemia de ódio profundo contra as mulheres. Tainara Souza Santos, 31, morreu no dia 24 de dezembro, após dias internada depois de ser atropelada e arrastada pelo ex-companheiro. Relembro aqui Bruna Oliveira da Silva. Ela tinha 28 anos quando foi assassinada por um homem enquanto voltava de metrô para casa. Há milhões de histórias, memórias e sonhos que foram interrompidos.

Como diria a ativista Neon Cunha: “o sonho é o antídoto do medo”. Por mais utópico que pareça, sou uma mulher, negra e periférica que encara o sonho como a primeira moldura para simbolizar e realizar grandes transformações sociais e políticas.

Sonhar uma rua iluminada e segura onde toda mulher possa andar tranquilamente. Sonhar relacionamentos saudáveis onde discordar não seja sinônimo de medo e até de morte. Sonhar alternativas seguras para romper o ciclo de violência. Sonhar com atendimento psicológico para mulheres e famílias que enfrentaram esse tipo de violência.

Para isso, no entanto, precisamos dar um passo anterior, e criar bases fortes para que possamos sonhar e nos imaginar no futuro. Precisamos que os homens parem de nos matar. Precisamos que esses sonhos sejam ouvidos e saiam do papel, e se traduzam em políticas consistentes de apoio e proteção às mulheres.

Queremos sonhar, além de apenas sobreviver.


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Samoel A Souza

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