Aparentemente, minha última coluna abalou o emocional de muitas pessoas, pois a quantidade de comentários, a maioria ofensivos, jamais foi vista em qualquer outro momento. O fato é que a manifestação demonstra um preconceito disfarçado por alguém como eu ter um espaço de fala aqui na Folha.
Primeiro o sobrenome “Beauty”, que, em tese, não tem credibilidade, agora a inteligência artificial, que uma colunista “intelectualizada” não deveria usar. Na verdade, o júri só vai mudando o argumento para achar algo de errado e combater o espaço que o jornal me ofereceu, um lugar de fala de mulheres que são improváveis, que eu conquistei com resultados reais e com impacto efetivo na vida de tantas pessoas, principalmente mulheres. Esse espaço de fala é uma gota de esperança para que outras mulheres, inclusive outras “beauty”, também acreditem que podem conquistar o “impossível”.
O tribunal de plantão, que honra a sua função com louvor, transformou a discussão do uso da tecnologia em julgamento moral na velocidade da luz. Prontos para regurgitar o ódio cuidadosamente cultivado, os juízes vorazes não perderam tempo e teclaram os comentários com fervor em diversas plataformas.
Confesso que poderia ignorar todos eles, pois seria mais confortável, mas como não sou de fugir de um embate, aqui estou, teclando com meus próprios dedinhos cada letra desse artigo (plateia: esteja pronta para identificar se este artigo foi escrito por IA no Pangram).
Descobri, pelos comentários, que sou uma fraude, plagiadora, preguiçosa e uma ameaça à família tradicional brasileira ou à casta pseudo intelectual nacional. Mas poucos, pouquíssimos, entenderam que se uma tecnologia estrutura um texto ela não substitui opiniões e pensamentos, já que escrever nunca foi apenas apertar teclas, mas sim compartilhar argumentos, visões, vivências, assumir posições, sustentar consequências.
Alguns zombaram afirmando que a confissão é a prova de culpa. Outros aplaudiram a coragem, mas para mim foi apenas uma atitude de transparência, um comportamento que faz parte do meu DNA. Gosto de enfrentar debates, gosto de ouvir argumentos, aprecio avaliar o comportamento humano. Aliás, tenho uma amiga que sempre diz: o “projeto humanidade” deu errado. Pode ser… Mas não é o momento de desistir dele.
Na minha humilde análise, já que segundo alguns leitores eu não sou especialista em nada, o que incomodou não foi a utilização da ferramenta, mas o fato de eu não ter vergonha de utilizá-la rotineiramente, porque se o problema for tecnológico, talvez o diagnóstico precise ser revisto. Se for ideológico, seria interessante assumirem, mas se for apenas resistência ao novo disfarçada de moralidade, a discussão não é sobre mim.
A turma do pseudo intelectualismo ficou bem incomodada. Por quê? Porque primeiro, quando havia só a escrita, quem escrevia tinha uma casta maior, era considerado superior aos outros. Quando grande parte do mundo começou a escrever, entrou a intelectualidade, a cultura, o repertório como elemento de diferenciação. E agora com a IA, “os nobres” estão se sentindo ameaçados novamente, porque, em tese, ser intelectual é saber transmitir o que pensa de forma crítica, autônoma e sistemática com domínio da linguagem e, convenhamos, quem domina com maestria uma IA, pode ser considerado um facilmente.
Sempre bom lembrar que responsabilidade não é delegável, pois quem assina responde, e que a ferramenta não é substituição. Autoria envolve responsabilidade, não sofrimento manual. Pensamento, inteligência, conhecimento, sabedoria não são medidos pelo número de horas gastas digitando.
No fundo quem critica usa tecnologia o tempo todo. Ninguém exige que um médico recuse algoritmo de diagnóstico. Ninguém exige que um juiz escreva a mão. Ninguém exige que um executivo faça planilha no papel, mas para um artigo de opinião, virou pecado mortal usar IA, caminho direto para as profundezas de um novo décimo círculo do inferno de Dante, superando a tal traição deliberada de benfeitores.
Dito isso, fico feliz por acender esse debate e sigo acreditando que muitas vezes a coragem é mais importante que as palavras.
Próxima semana, voltamos a programação normal.
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