Horas após militares anunciaram a derrubada do presidente do Benim, Patrice Talon, forças leais ao governo frustraram o que seria o terceiro golpe de Estado no continente africano em 2025. Diferentemente do que aconteceu em nações vizinhas, o caso contou com uma resposta rápida não só internamente, como também de aliados internacionais do país localizado na África Ocidental.
Além de militares leais a Talon, a resposta aos golpistas também por meio da Nigéria e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que decidiram enviar tropas para conter a tentativa de rebelião no Benim.
Mesmo com a situação controlada, o caso acendeu um alerta na CEDEAO. Dias após a tentativa de golpe no Benim, o presidente do bloco de nações africanas, Omar Touray, decretou estado regional. Para justificar a decisão, o diplomata da Gâmbia citou os recentes golpes, assim como tentativas de militares derrubarem governos em países da África Ocidental, como fatores que impulsionaram o retrocesso democrático na região.
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Mali, Chade, Guiné, Sudão, Burkina-Faso, Níger, Gabão, Madagascar e Guiné-Bissau. Além de integrarem o continente africano, as nove nações possuem uma semelhança em suas histórias recentes: todas foram alvos de golpes militares bem sucedidos desde 2020.
O mais recente deles aconteceu em Guiné-Bissau, no fim de novembro, quando uma junta militar suspendeu o processo eleitoral em curso. O momento coincidiu com uma disputa interna entre os dois principais candidatos presidenciáveis do país: o então presidente Umaro Sissoco Embaló, e o líder da oposição, Fernando Dias da Costa. Mesmo sem a divulgação oficial dos resultados, ambos alegaram serem os vencedores da eleição.
Ao anunciarem o golpe, o Alto Comando para Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública afirmaram que buscava impedir um “plano em curso para desestabilizar o país”, assim como defender a democracia no país. Com isso, o então presidente do país foi deposto do cargo e se exilou em Senegal.
Mesmo com a deposição de Embaló, e a formação de um governo de transição pelo período de um ano, analistas apontam para um possível um golpe orquestrado. Isso porque grande parte dos nomes apontados para administrar o país durante nesta fase são figuras ligadas ao ex-presidente.
As ameaças citadas por militares em Guinè-Bissau contra a estabilidade do país, e a democracia, já foi utilizada em outros países, como nos golpes militares na Guiné em 2021, e no Gabão em 2023.
Em outros casos recentes, porém, temas como questões de segurança e economia também foram motivos para a derrubada de governos.
“A maioria desses golpes ocorreram naquele período imediato pós-Covid, e sabemos que a pandemia no continente africano, além dos danos populacionais como mortes, provocou danos econômicos”, explica Anselmo Otavio, professor e coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “A economia desses países já eram frágeis, e algumas entraram em colapso após o Covid-19. Então, isso levou a população a exigir soluções, e quando o governo não atende essas soluções, você entra em um caminho marcado, por exemplo, por golpes militares”.
Dos nove golpes militares em sucedidos no continente desde 2020, cinco deles se concentraram em países da África Ocidental: Mali, Guiné, Burkina-Faso, Níger e Guiné-Bissau. E, em três deles um movimento em comum: mudanças não só internas, como também uma reformulação de alianças internacionais.
A medida em que governos antes aliados com o ocidente caíram, Burkina Faso, Mali e Níger decidiram virar às costas para a antiga colônia, a França. Ao mesmo tempo em que aumentaram o sentimento anti-francês, os três países também reformularam suas políticas externas, e buscaram a Rússia de Vladimir Putin como um contraponto as antigas alianças.
Neste sentido, Moscou passou a ser uma alternativa para diversos problemas locais, assim a crise provocada do terrorismo na região, impulsionado pela migração de grupos jihadistas do Oriente Médio para a África.
Enquanto buscavam novos aliados no setor de Defesa, tropas francesas também foram expulsas de diversos países da África Ocidental — e de outras nações do continente.
Outro marco significativo da mudança regional, impulsionada principalmente por Burkina Faso, Mali e Níger, foi a criação da Aliança dos Estados do Sahel (AES). Firmado em setembro de 2023, o pacto de baseia em um acordo de defesa mútua entre as três nações do Sahel.
Ele surgiu como uma resposta direta a ameaça de países da CEDEAO, alinhados com o Ocidente, de intervir militarmente no Níger em 2023, após militares derrubarem o então presidente Mohamed Bazoum.
“Esses países alvos de golpes militares foram isolados da União Africana, mas de certo modo eles não se importaram muito com isso. Eles, inclusive, formaram a Aliança dos Estados do Sahel, que tem um objetivo e é uma afronta à própria CEDEAO, e representa também um desafio para a região como um todo “, explica Anselmo Otavio.
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