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Obrigada por me emprestar sua paixão – 17/02/2026 – Joanna Moura


O telefone tocou e eu sabia que tinha que atender, afinal, em pleno 2026, qualquer ligação à moda antiga ganha status de urgência. “Quer ir pra Sapucaí comigo na segunda-feira?”, me disse a voz que saía do telefone.

Nem lembro o que respondi. Tinha me convencido de que esse ano a folia se encaixaria onde desse: entre as malas que se empilham na sala, nos intervalos da lista de afazeres da mudança de continente, no respiro da noite, quando as crianças já dormem. Mas há coisas na vida que, mesmo diante da inércia, teimam em vir até nós.

Eu não acredito que qualquer divino esteja particularmente interessado em mim —muito menos que, diante de tanto com o que se preocupar por aí, se ocupe de mover uma pedra que seja para alterar o meu caminho. Mesmo assim, encarei a ligação como benção e fiz o que se faz ao ser abençoada: aceitei e agradeci. E, depois de mais de dez anos, pus os pés na Sapucaí outra vez.

Cheguei com o barulho dos fogos de artifício explodindo no céu, anunciando o início dos desfiles. Apressei o passo pelos corredores lotados de gente que fazia pose para fotos em fundos artificiais com logos de patrocinadores. Passei pela fila de quem esperava para encher o bucho, no intento de que o álcool, servido a contento, não chegasse ao estômago sozinho. Passei pela customização de calçados, pela estação de maquiagem, pelo DJ empenhado em seu set de música eletrônica. Até que avistei o clarão dos holofotes na avenida.

Me espremi por aquela gente vestida de branco e de brilhos até que minha barriga encontrou a barreira da frisa, onde permaneci pelas próximas sete horas, embasbacada, extasiada, arrebatada pela magnitude daquele que é, sim, o maior show da Terra.

No tempo que fiquei ali, vi passar na minha frente a liberdade e a genialidade de Rita Lee. Vi a avenida virar Bembé e bater no peito para celebrar a força da macumba. Vi uma escola inteira se curvar diante do gigante Mestre Ciça, enquanto nos lembrava que não é preciso esperar a saudade para cantar do que amamos.

Mas, de tudo de divino que testemunhei ali naquela noite, foi a paixão de duas mulheres cujos nomes eu não sei que me levou às lágrimas.

Eram minhas vizinhas de frisa. Nunca tinham se visto na vida, mas rapidamente descobriram que compartilhavam a adoração pela Viradouro, escola de Niterói, onde ambas cresceram em décadas diferentes. Não sabiam nem o nome uma da outra, mas, assim que ouviram o som da Furacão Vermelho e Branco, choraram de mãos dadas, cantando o samba a plenos pulmões, batendo nas veias dos braços, como quem diz: “É por aqui que corre minha paixão”.

Eu fiquei ali no meio das duas, chorando com elas, sentindo fluir aquele orgulho, sendo contaminada por aquela paixão. Durante os oitenta minutos, eu, que amo o Carnaval mas não tenho uma escola para chamar de minha, entoei o canto delas e fui Viradouro também.

Voltei para casa com o sol já alaranjando o horizonte, a cabeça cansada encostada no vidro do táxi, pensando: que coisa bonita é ver gente apaixonada vivendo sua paixão. E que louco é esse poder que a paixão tem de contaminar quem está ao redor.

Até agora não sei o que fiz para que o destino (ou o divino) me colocasse ali, entre aquelas duas desconhecidas. Só sei que sigo agradecendo o privilégio de ter testemunhado e, por uma noite apenas, ter pego emprestadas suas paixões.


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Samoel A Souza

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