Nesta terça-feira (17), Vinicius Jr. precisou passar por mais um teste sobre até onde vão sua paciência, sua grandeza e seu desejo de jogar futebol. Desta vez veio do campo de jogo e o brasileiro precisou seguir compartilhando espaço com seu agressor. Giuliano Prestianni é um covarde que atira a pedra e esconde a mão. Falar colocando na boca a camiseta é também uma confissão de culpa.
Aqui estamos para aprender, como sociedade, com o exemplo de Vinicius. Desde que decidiu não baixar a cabeça e denunciar os constantes insultos, Vini mostrou que o preto que se rebela e levanta a voz é um insolente e um gerador de problemas. Sim, a lógica é a inversa e a vítima é quem cria o tumulto, na cabeça de uma sociedade na qual as vozes dominantes são brancas.
Desta vez, a lição me parece muito clara: Vini —e os pretos— estão sozinhos na hora de denunciar. Em um jogo de futebol transmitido para todo o planeta, um dos jogadores mais midiáticos de sua geração se vê impotente ao tentar denunciar a agressão ao topar com a barreira de “uma palavra contra a outra”.
Se isso acontece com Vinicius e uma infinidade de câmeras ao seu redor, não é difícil imaginar o que acontece nas periferias, nos ambientes de trabalho, no trânsito ou nas abordagens policiais. É impossível, para uma pessoa branca como eu, imaginar quanta violência explícita ou estrutural é jogada para debaixo do tapete porque tudo se resumiria a versão da “suposta vítima” versus a do “suposto agressor”.
O futebol é essa grande metáfora do mundo e o planeta viu nesta semana que o agressor segue no mesmo ambiente da vítima, impune e cínico, trabalhando normalmente.
Qual a chance de Prestianni pagar pelo que (precisamos colocar assim) “supostamente” fez? É preciso que os jogadores que presenciaram a cena denunciem. Killyan Mbappé foi aos microfones depois do jogo dizer que ouviu por cinco vezes o insulto de “macaco”. Companheiros de Benfica também deveriam se manifestar. Quando os outros se calam, deixam Vinicius sozinho e sua voz perde força.
O mesmo acontece fora de um campo de futebol. Se presenciamos e fingimos que não ouvimos, se não denunciamos, se não endossamos a defesa, fica muito difícil que um agressor pague pelo que fez. Porque, no final das contas, na grande maioria das vezes, será a palavra de um contra a do outro.
O próximo passo é entender o que o Benfica fará. Por enquanto, defende seu jogador e diz que Vinicius entendeu errado o que foi dito (segundo Tchouameni, do Real Madrid, Prestianni alegou chamar Vinicius de “maricon”). O clube vai seguir escalando-o como se nada tivesse acontecido? No próximo jogo, a torcida irá cantar o seu nome? Os jogadores pretos do vestiário vão considerar o caso um grande mal-entendido?
Esta situação também é análoga a outras que vivemos fora das quatro linhas. Um parente, um companheiro de trabalho, um amigo de infância. É mais fácil atuar quando estamos próximos à vítima do que do agressor?
Um jogo de futebol pode nos ensinar muitas coisas. Quando Vinicius Jr. está em campo, muito mais. Temos que aprender que um jogador capaz de fazer um golaço e decidir uma partida é também capaz de seguir em campo lutando mesmo sabendo que o inimigo mais cruel está do outro lado, com a frieza cruel da lei ao seu lado. Assim como fazem os pretos Brasil e mundo afora, todos os dias.
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