Médicos estão sendo presos no Irã por atenderem e tratarem os feridos dos protestos contra o regime que tomaram o país, segundo relatos de organizações de direitos humanos. Ao menos um dos profissionais, o cirurgião Alireza Golchini, da cidade de Qazvin, corre o risco de ser executado.
Ele foi acusado de “moharebeh”, termo do direito iraniano que pode ser traduzido como “inimizade contra Deus”, uma imputação que pode levar à pena de morte. O Departamento de Estado dos Estados Unidos pediu que ele e todos os outros profissionais de saúde detidos fossem liberados.
De acordo com relatos feitos a ONGs como a Hrana e a Iran Human Rights (IHR), sediadas fora do país, o regime encabeçou uma espécie de campanha de vingança contra médicos, e agentes das forças de segurança estariam pressionando profissionais de saúde dentro de hospitais.
Segundo um boletim da Hrana, militares teriam invadido inclusive unidades de terapia intensiva. Profissionais de saúde relataram ter escondido manifestantes feridos e ter realizado atendimento em locais improvisados para não serem pegos.
Nima Golchini, prima do cirurgião preso, contou em entrevista ao The Guardian que ele foi levado de sua casa em 10 de janeiro. “Ele foi preso de forma violenta na frente de sua esposa e de seu filho, que tem apenas 11 anos”, afirmou ela, que vive no Canadá.
“Eles o espancaram tanto durante a prisão que quebraram seu braço e suas costelas e o arrastaram para fora de casa. Minha família está apavorada.”
Alguns dias antes de sua prisão, Golchini havia publicado uma mensagem em suas redes sociais, segundo Nima, compartilhando seu número e pedindo que pessoas feridas entrassem em contato com ele para tratamento. Ele é um dos ao menos nove médicos e profissionais de saúde que teriam sido presos, segundo relatos de ONGs.
Um socorrista voluntário que tratou manifestantes em sua casa na cidade de Ardabil foi preso no dia 14 de janeiro, após agentes invadirem o local.
As autoridades iranianas não comentaram publicamente a detenção de Golchini. O aiatolá Ali Khamenei afirmou neste mês que as autoridades têm a obrigação de “quebrar a espinha dorsal dos sediciosos”.
Segundo organizações de direitos humanos, o regime instalou postos de controle e realizou buscas de porta em porta para identificar e prender manifestantes. Relatos afirmam que, nestes postos de controle, os agentes forçam pessoas a se despirem e, se forem encontrados sinais de ferimentos causados por armamento usado pelas Forças Armadas, eles são presos.
Além disso, familiares de detidos relatam que seus entes ficam incomunicáveis e que o regime não dá informações claras sobre o paradeiro deles ou a situação do processo judicial. Segundo a Iran Human Rights, ao menos 40 mil pessoas foram presas.
Os protestos no Irã começaram em dezembro e se espalharam pelo país, se transformando na mais séria ameaça à teocracia desde sua instalação, em 1979. O regime respondeu com uma brutal repressão. Organizações de direitos humanos contabilizam mais de 6.000 vítimas, enquanto Teerã admitiu que 3.000 pessoas morreram durante as manifestações.