Vendo imagens da enorme passeata pró-Palestina em Londres, no sábado (31), noto bandeiras do Irã e fotos do aiatolá Ali Khamenei. Achei curioso. Afinal, se a intenção é defender a liberdade do povo palestino, não faz muito sentido ostentar símbolos da teocracia que banca o Hamas, grupo que governa a Faixa de Gaza pela força bruta desde 2007, quando conquistou o controle exclusivo do poder por meio de um golpe armado —após vencer o pleito legislativo em 2006.
Desde lá, não há eleições. Segundo relatórios de órgãos como a Anistia Internacional e a ONU, há repressão a protestos, movimentos civis e jornalistas, perseguição a opositores, detenções arbitrárias, tortura e toda sorte de infrações ao devido processo legal e a liberdades civis.
E o Irã patrocina o Hamas, com financiamento estimado em dezenas de milhões de dólares por ano, além de fornecimento de armamentos e treinamento militar. O Hamas que, ao atacar Israel, deu início à guerra que ora dizima palestinos —seja por abusos cometidos por Tel Aviv, seja porque são usados como escudo humano pelo grupo terrorista.
Enquanto a marcha ocorria em Londres, também vi imagens da manifestação de um punhado de estudantes iranianos na Universidade Columbia, em Nova York, em apoio à onda de protestos contra o regime opressivo dos aiatolás, cujas forças de segurança já mataram milhares de pessoas.
Questionavam a inação de seus colegas acadêmicos: “Vimos como vocês se mobilizaram por diferentes causas. Vocês assistirão em silêncio enquanto nossos irmãos e irmãs são brutalizados?”.
O silêncio sobre a crueldade do Hamas e da teocracia iraniana remete a Albert Camus, execrado por seus pares da intelectualidade francesa após mostrar em “O Homem Revoltado” (1951) que nada, nenhuma ideologia, justifica a defesa do terror revolucionário e de regimes totalitários.
Foi acusado de moralista, como se fosse demérito. Não é. Só o senso moral põe o homem real acima da abstração política que justifica violência. Lá se vão 75 anos, e parte da esquerda ainda não aprendeu a moral da história.