“Desaparecer, não ver e não ser vista” era o que Gisèle Pelicot desejava poucos meses antes do julgamento de seu ex-marido, Dominique Pelicot, que a dopou e a estuprou enquanto estava desacordada ao longo de dez anos, em um caso que chocou a França e o mundo.
Ex-companheiro e primeiro grande amor, com quem teve três filhos e conviveu por quase meio século, Dominique misturava medicamentos relaxantes e hipnóticos à comida e à bebida da mulher. Depois, convidava homens que conhecia online para entrar na casa e no quarto do casal, e violentar o corpo desfalecido de sua mulher.
Além de Dominique, outros 50 homens se sentaram no banco dos réus. Eles foram identificados e presos após uma investigação que começou com um flagrante constrangedor, mas quase banal diante do que ele revelaria. Dominique foi surpreendido filmando com o celular por baixo das saias de três mulheres em um supermercado de Mazan, pequena cidade da Provença para onde o casal havia se mudado depois de anos de trabalho em Paris.
A polícia apreendeu o telefone e também o computador do acusado. No disco rígido, encontrou uma vasta coleção de fotos e vídeos caseiros que registravam cenas de estupro de Gisèle por dezenas de agressores.
“Eram homens de idades e profissões diversas, homens comuns, pessoas com quem cruzamos no dia a dia. Todos receberam voz de prisão. E muitos disseram que não tinham feito nada de errado”, escreve Gisèle em “Um Hino à Vida: A Vergonha Precisa Mudar de Lado“, que chega ao Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Julia da Rosa Simões.
Depois da comoção internacional provocada pelo caso e pelo julgamento, é agora a autobiografia que atrai atenção internacional, convertendo-se em sucesso editorial.
No livro, Gisèle expõe um contraste contundente. De um lado, o espanto e os horrores a que foi submetida enquanto sedada. De outro, a história de amor e ternura que marcou a maior parte da vida conjugal — lembrança à qual ela insiste em se agarrar, sem romantizar as dificuldades financeiras que sempre os acompanharam. “A vida não se repete. Se eu apagasse tudo, estaria morta. E há muito tempo”, escreve.
A autora também mergulha na própria infância e na de Dominique, o que pode explicar a escolha do título original, “La Joie de vivre” —a alegria de viver, em francês—, idêntico ao romance de Émile Zola, criador do naturalismo e um dos retratistas mais agudos dos tabus e neuroses da sociedade francesa do século 19.
Já o subtítulo da edição brasileira recupera a declaração feita por Gisèle na entrada do tribunal, durante o julgamento. Ela havia decidido romper o anonimato, abrir mão do segredo de Justiça e rejeitar a possibilidade de um processo a portas fechadas —o que a colocaria frente a frente com seus 51 estupradores, mas os preservaria do escrutínio público.
O gesto alterou a lógica patriarcal que costuma culpar e envergonhar mulheres vítimas de violência sexual enquanto protege seus agressores e seus crimes. Sem jamais ter se definido como feminista, Gisèle se tornou um símbolo contemporâneo do movimento.
“Todos precisavam ver os 51 estupradores. Eles é que deveriam se curvar. Não eu”, escreve sobre a decisão que a libertou da vergonha ao mesmo tempo que expôs de forma inédita um crime abjeto com todos os seus detalhes sórdidos e documentação audiovisual perturbadora.
A narrativa revela o caso logo nas primeiras páginas. Gisèle e Dominique vão à delegacia para que ele preste depoimento sobre a filmagem no supermercado. Separada do marido, ela responde às perguntas do investigador sobre o marido: “Ele é uma pessoa gentil, atenciosa. Um cara incrível, por isso estamos juntos até hoje”. Em seguida, o policial a adverte: “Vou lhe mostrar fotos e vídeo de que a senhora não vai gostar”.
Na primeira imagem, uma mulher de cinta-liga, deitada de lado, é penetrada por um homem negro. Na segunda, um homem branco tatuado se deita sobre seu corpo na cama. O maxilar frouxo faz com que a mulher pareça uma boneca de pano.
“Não sou eu”, reage Gisèle. O inspetor, porém, chama sua atenção para o abajur de seu quarto estampado na imagem. “Meu cérebro parou de funcionar ali, na sala do inspetor Perret”, escreve. Dominique já estava preso.
A revelação foi compartilhada com a melhor amiga e com os filhos, desencadeando uma espiral de traumas, mágoas e fúrias que esfacelou a família e transformou por completo sua vida. Os filhos destruíram os pertences do pai e rasgaram fotos de família. Levada para Paris com apenas duas malas, Gisèle passou a viver alternadamente na casa de cada um deles, quando o que mais precisava era de solidão —ao lado do fiel buldogue Lancôme— para assimilar o que acontecera.
Ao reconstituir a vida conjugal, percebeu que não soubera interpretar os sinais acumulados ao longo de quase uma década. Considerou irrelevante o endereço de email do marido, iniciado por “Fetiche45”. Não desconfiou do gosto amargo de um prato que ele descartou às pressas nem da cerveja que lhe servia e que, subitamente, ficou verde.
Acordava com o pijama molhado com frequência, mas atribuía o episódio ao envelhecimento —sem saber que era resultado de uma lavagem feita por Dominique “terminada a sujeira”. Os apagões que a faziam esquecer o dia anterior lhe pareciam sintoma de um tumor cerebral, como o que matou sua mãe. Era o próprio marido quem a tranquilizava e a conduzia a médicos que jamais chegavam a um diagnóstico.
Tampouco viu como alerta o sonho recorrente, já em Mazan, em que um homem e uma mulher batiam à porta em busca de Dominique para tratar de “uma queixa envolvendo uma mulher”.
Gisèle se tornara a mulher que “peritos psicólogos consideravam submissa, que os estupradores chamavam de mentirosa e que a juíza tinha dificuldade de entender”, porque ela permanecia erguida apesar de tudo, e até conseguia sorrir. “Se eu deixasse transparecer a extensão de minha dor, de todas as minhas dores, me afogaria nelas. Não tive escolha senão me fazer invencível”, escreve ela, que encontrou refúgio também em um novo amor.
Exposto integralmente, o caso deixou de suscitar mera curiosidade mórbida para iluminar a dominação e a violência contra mulheres que ainda estruturam nossa sociedade. Os 50 homens foram condenados, apesar dos olhares de escárnio que muitos lançaram contra ela durante as semanas de julgamento, período em que uma multidão —majoritariamente feminina— se reunia diante do tribunal para manifestar apoio.
“Todos os dias alguém me agradece por minha coragem, mas sinto que devo dizer que não se trata de coragem, e sim de vontade e determinação de fazer essa sociedade patriarcal e machista evoluir”, escreve. A mesma Gisèle que nunca se interessara por Simone de Beauvoir nem pelas discussões sobre pílula anticoncepcional e aborto em sua juventude reconhece: “Em outros tempos eu jamais teria pronunciado uma frase como essa”.

