Vadim Valentinovitch Nikitin teve uma vida totalmente ligada à arte. Filho de um dos mais famosos e premiados atores russos, Valentin Gaft (1935-2020), e da artista plástica e professora de artes Elena Nikitina, ele nasceu em Moscou e chegou ao Brasil em 1976, aos 4 anos, acompanhado da mãe, após a separação dos pais.
Eles chegaram a São Paulo para morar com a irmã de Elena, a tradutora Klara Gourianova (1932-2021), casada com o também artista plástico Octávio Araújo (1926-2015).
Cercado pelo meio artístico, ele também seguiu esse caminho, formando-se em letras na FFLCH/USP (Universidade de São Paulo). No início, trabalhou na Editora Martins Fontes. Depois, foi ator, diretor, dramaturgo e tradutor de obras de Anton Tchekhov, William Shakespeare, Federico García Lorca, Lev Tolstói, Marguerite Duras e Fiódor Dostoiévski, entre outros, além de escrever críticas e textos sobre teatro.
“Conheci o Vadim na FFLCH/USP. Entrei no curso de russo e ele já estava estudando português. Os professores eram encantados por ele. Entendia teoria literária, já tinha lido tudo e tinha relação com a palavra”, diz a amiga Tatiana Tomé. “Vadim tinha hipersensibilidade para o holístico da arte. A palavra para ele era música, era teatro, era literatura, e a música era cinema e artes plásticas.”
Em entrevista para a Folha, em 2010, ele resumiu a sua paixão:
“Gosto mesmo é de fazer dramaturgia, ou seja, traduzir uma obra, teatral ou literária, para as minhas próprias palavras, que brotam por sua vez da ação do ator e da máquina orgânica do palco. É essa, para mim, a tradução essencial, a palavra transformada em corpo, memória, saudade, ofensa, ação contracenando com o mundo.”
“Ele era uma pessoa apaixonada pelo teatro, pela palavra, pela escrita, pelos textos russos e brasileiros também. Era um russo do samba, um russo cartola. Conhecia muito da nossa cultura”, diz a amiga Priscila Gontijo, também dramaturga, escritora, roteirista, pesquisadora e professora. “O Vadim era genial. Acho que foi o primeiro gênio que conheci.”
Como ator, atuou no Teatro Oficina de 1996 a 2005, encenando peças como “As Bacantes”, de Eurípides, “Hamlet”, de Shakespeare, “Boca de Ouro” e “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues. Ele dirigiu “Os Sete Gatinhos” (2001), de Nelson Rodrigues, além de escrever e dirigir, entre 1997 e 2021, as peças “Canção de Cisne” e “2497 Rublos e Meio”. E ainda foi o dramaturgo do espetáculo “Um Jeito de Corpo”, do Balé da Cidade de São Paulo, baseado na obra de Caetano Veloso.
“Ele era um cara que juntava mundos, fazia pontes. Tinha um senso de poesia muito aguçado, conseguia unir e traduzir no sentido poético mesmo, de buscar essa verve na cultura e saber como ressoa na outra cultura”, analisa a compositora e poetisa Marina Tenório, também nascida em Moscou, destacando o perfeccionismo de Vadim em tudo o que fazia.
Nos últimos anos, Vadim dedicou-se às traduções, para ficar próximo da mãe, que começou a ter problemas de mobilidade e passou a usar cadeira de rodas.
“Vadim era maravilhoso. Fiquei quatro anos não andando e era ele que cuidava de mim. Ele brincava muito, era inteligente mesmo de nascença. Comprava muitos livros e fez uma coleção muito grande, que pegou três paredes da sala. Só sobrou a parede da janela”, conta Elena.
Morreu no dia 7 de fevereiro, em São Paulo. Ele deixa a mãe, muitos amigos e um legado de obras e traduções.
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