Um dos momentos marcantes do governo de Jair Bolsonaro foi a indicação de um ministro “terrivelmente evangélico” para o STF. Poucos anos depois, André Mendonça torna-se relator de dois casos que, segundo analistas, podem implodir a República.
O que esperar então de Mendonça? Tudo isso no ano em que Lula, aos 80 anos, deve enfrentar sua quarta campanha presidencial, possivelmente contra o filho do presidente que indicou um evangélico ao Supremo.
O contexto político, no entanto, traz sinais confusos. Duas figuras centrais do conservadorismo evangélico —Michelle Bolsonaro e o pastor Silas Malafaia— foram decisivas para a aprovação de Mendonça e agora resistem à candidatura de Flávio.
O escândalo do Banco Master vem sendo comparado à Operação Lava Jato pela quantidade de nomes importantes aparentemente envolvidos. À semelhança do caso Epstein nos Estados Unidos, o episódio permanece vivo pela pressão pública e ameaça políticos, juízes e empresários à direita, à esquerda e ao centro.
No Brasil, o caso ganha componente simbólico adicional por ter como relator não apenas um cristão, mas um pastor presbiteriano. O presbiterianismo, vale lembrar, mantém interlocuções com setores ligados ao movimento Maga, de Donald Trump, por meio de figuras como o pastor Douglas Wilson, defensor do chamado nacionalismo cristão.
Embora deva sua indicação ao Supremo a Bolsonaro, Mendonça também anunciou que trabalharia pela confirmação do nome de Jorge Messias, evangélico e aliado de confiança do presidente Lula, para levar ao STF outro conservador no campo dos costumes.
Mendonça, que atua como pastor adjunto na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo, estará sob os holofotes também pela aparente relação dos casos com líderes evangélicos. Recentemente, a senadora Damares Alves afirmou, em entrevista ao SBT News, que pastores de grandes igrejas aparecem nas investigações do INSS.
Na semana passada, o ministro do TCU Jhonatan de Jesus, também evangélico, em ação inusual, alterou o nível de sigilo de processo que investiga a atuação do Banco Central na liquidação do Master, retirando da autarquia o acesso direto aos autos. Também questionou a conduta do BC ao decidir pela liquidação.
A família ligada ao Master mantém relação com a Lagoinha Church. A irmã de Daniel Vorcaro é pastora da denominação, assim como seu marido, Fabiano Zettel, que já foi detido pela Polícia Federal. Zettel aparece como doador das campanhas de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022.
No campo evangélico, há uma postura difundida de evitar escândalos que comprometam a reputação das igrejas. Ao mesmo tempo, cresce o cansaço com o custo reputacional do envolvimento de cristãos em casos de corrupção.
O modo como Mendonça conduzirá esses casos complexos e sensíveis terá influência sobre a imagem do STF e sobre a percepção do país sobre os evangélicos e seu papel na política. A expectativa é que ele defenda o Supremo, não influencie a eleição e trate suspeitos da mesma maneira, independentemente da fé.
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