Os três clérigos católicos romanos de mais alto escalão que lideram arquidioceses nos Estados Unidos afirmaram em uma declaração contundente nesta segunda-feira (19) que o “papel moral dos EUA no combate ao mal em todo o mundo” está em xeque pela primeira vez em décadas. Sua crítica aos princípios do governo de Donald Trump —embora não mencione o presidente pelo nome— intensifica as denúncias da Igreja Católica americana contra os principais líderes do país.
Em 2026, o país entrou no “debate mais profundo e acalorado sobre a base moral das ações dos Estados Unidos no mundo desde o fim da Guerra Fria”, diz a declaração incomum emitida pelo cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago; pelo cardeal Robert McElroy, arcebispo de Washington; e pelo cardeal Joseph Tobin, arcebispo de Newark, Nova Jersey.
Citando eventos recentes na Venezuela, Ucrânia e Groenlândia como tendo levantado questões fundamentais sobre o uso da força militar, os cardeais pedem uma “política externa genuinamente moral”, na qual “a ação militar deve ser vista apenas como último recurso em situações extremas, não como um instrumento normal da política nacional”.
Os cardeais não se aprofundaram em pormenores da política e se recusaram a dar detalhes sobre os países mencionados na declaração. Eles especificamente enquadraram sua declaração como uma mensagem maior do que categorias partidárias.
Mas o contexto é claro. O presidente ameaçou tomar a Groenlândia “à força”. Na Venezuela, o Trump ordenou que tropas americanas atacassem barcos que, segundo ele, traficavam drogas, e as forças capturaram e retiraram o ditador Nicolás Maduro e sua esposa sem autorização do Congresso.
O papa Leão 14 enfatizou a “soberania” da Venezuela e pediu diálogo em vez de violência. Ele também pediu repetidamente pela paz na Ucrânia e disse que o plano de paz de Trump traria uma “grande mudança” na aliança entre a Europa e os Estados Unidos.
Em entrevistas e em sua declaração, os cardeais americanos expressaram preocupação com o surgimento de uma ordem global baseada na força e na dominação, em vez de uma baseada na paz e na liberdade.
“O consenso pós-Segunda Guerra Mundial de diálogo entre as nações, os direitos soberanos dos países, a recusa em usar a guerra para buscar questões de domínio nacional e ganhos nacionais —esse consenso está mudando agora”, disse McElroy em uma entrevista. Ele foi nomeado pelo papa Francisco para o influente cargo de arcebispo de Washington poucas semanas antes da segunda posse de Trump em 2025.
A declaração dos cardeais foi inspirada em parte por conversas que os três tiveram no início deste mês em Roma, em uma reunião a portas fechadas para a qual Leão 14 convocou todos os cardeais do mundo.
Nas discussões com os colegas, os três americanos ficaram impressionados com “uma sensação de alarme sobre o rumo que as coisas estavam tomando no mundo e algumas das ações que estavam sendo tomadas nos Estados Unidos”, disse Cupich em uma entrevista.
As preocupações incluíam o desmantelamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional no ano passado, uma decisão que cortou o fluxo de ajuda externa aos países mais pobres do mundo.
Logo após se reunir com os cardeais, Leão proferiu um discurso ao corpo diplomático no Vaticano no início de janeiro, um momento que essencialmente serve como a declaração anual do papa sobre política externa. No discurso, o papa nascido nos Estados Unidos condenou “uma diplomacia baseada na força” e um “zelo pela guerra”, sem mencionar nenhum líder mundial pelo nome.
Leão 14 sucedeu Francisco em maio e é visto por muitos observadores como mais reservado do que seu antecessor, mas geralmente dedicado a prioridades semelhantes de solidariedade com os fracos e oprimidos. Em seus oito meses à frente dos 1,4 bilhão de católicos do mundo, o papa frequentemente pediu paz e diálogo em conflitos internacionais espinhosos e repreendeu líderes políticos pelo que descreveu como tratamento injusto de migrantes, pobres e explorados.
O pontífice até agora evitou confrontos diretos com Trump, mas sua abordagem ao cenário político turbulento de seu país natal tem sido acompanhada de perto nos EUA e no exterior. Em outubro, quando Trump intensificou sua campanha de deportação na cidade natal de Leão, Chicago, o papa exortou os bispos dos EUA a apoiarem fortemente os imigrantes. Mais tarde, ele encorajou os católicos e outras pessoas a lerem uma declaração dos bispos americanos repreendendo a campanha de deportação do governo Trump.
A nova declaração dos três cardeais americanos é enquadrada como uma interpretação da visão emergente de Leão para as relações internacionais como uma “bússola ética duradoura para estabelecer o caminho para a política externa americana nos próximos anos”.
“Os direitos soberanos das nações à autodeterminação parecem muito frágeis em um mundo de conflitos cada vez maiores”, escreveram. “A construção de uma paz justa e sustentável, tão crucial para o bem-estar da humanidade agora e no futuro, está sendo reduzida a categorias partidárias que incentivam a polarização e políticas destrutivas.”
A declaração também se refere ao aborto e à eutanásia como impedimentos ao direito à vida, que descreve como a base de outros direitos humanos. E critica os cortes na ajuda externa e “as crescentes violações da consciência e da liberdade religiosa em nome de uma pureza ideológica ou religiosa que esmaga a própria liberdade”.
Os três cardeais lideram dioceses que, juntas, incluem quase 4 milhões de católicos, mais de 550 paróquias e centenas de escolas católicas.
Trump disse ao jornal The New York Times este mês que suas decisões como comandante-chefe são limitadas apenas por sua “própria moralidade”. “Não preciso do direito internacional”, disse ele. “Não estou procurando prejudicar as pessoas.”
Tobin disse em uma entrevista que ficou impressionado com as vozes do governo Trump que pareciam estar promovendo uma estrutura moral que ele descreveu como “quase um cálculo darwiniano de que os poderosos sobrevivem e os fracos não merecem”. Ele acrescentou: “Eu diria que isso é menos que humano”.