Cada novo meio de comunicação dá aos mentirosos novas ferramentas – 23/12/2025 – Deirdre Nansen McCloskey
Os seres humanos mentem. Hitler teorizou a Grande Mentira em “Mein Kampf” e a usou repetidamente: “Os 2% da população que são judeus causam os problemas da Alemanha”. Políticos populistas como Donald Trump dependem da Grande Mentira: “Os 3% da população dos EUA que não têm o direito legal de viver nos EUA são a causa dos problemas dos EUA”. As fronteiras nacionais redesenhadas após a Primeira Guerra Mundial inundaram a Alemanha de imigrantes, legais e ilegais — em proporção maior do que atualmente nos EUA. Temer, odiar e culpar os imigrantes foi outra fonte da popularidade de Hitler.
Às vezes, são mentiras médias. Políticos comuns as contam o tempo todo, com boas ou más intenções e bons ou maus resultados. “Trabalhe duro e siga as regras e você alcançará o sonho americano.” Bem, infelizmente, nem sempre.
E contamos pequenas mentiras o dia todo, muitas vezes inofensivas. A franqueza absoluta, como a recomendada por Immanuel Kant, destruiria a civilização ou um casamento. Se uma esposa pergunta ao marido: “Estas calças deixam meu traseiro enorme?”, ele responde: “Claro que não, querida”, ou finge que não ouviu e se retira o mais rápido possível.
Novos meios de comunicação e a disseminação da mentira
Você sabe tudo isso. O que quero sugerir, e que talvez você não saiba, é que cada novo meio de comunicação oferece novas oportunidades para pequenas e grandes mentiras. Sócrates se queixou de que um texto escrito — uma novidade de dois séculos na Grécia da época — podia mentir e, como não era possível questionar imediatamente seu autor, este poderia se safar com mentiras. Nas antigas quase democracias e nos tribunais de Justiça, a oratória necessária para a deliberação entre iguais era vista como uma ferramenta mestra da política, para o bem ou para o mal.
A era digital e os desafios da verdade
Nosso problema humano é como impedir que a mentira se torne tão disseminada a ponto de ameaçar a sociedade — que é o que enfrentamos hoje com políticos populistas armados de novos meios de comunicação. Já lhes falei antes sobre a fórmula protetora de Catão, o Velho, de que o orador virtuoso é “um bom homem com habilidade para falar”. Erdogan, Orbán, Maduro, Trump, homens maus hábeis na fala, agora têm a internet para espalhar a Grande Mentira. A inteligência artificial está piorando a situação.
O papel da sociedade na busca pela verdade
Mas trago um pensamento reconfortante da história. É verdade que cada novo meio de comunicação, da oratória à escrita, da imprensa aos jornais, do rádio à TV, da internet à IA, dá aos mentirosos novas ferramentas. Mas também, sempre que isso acontece, depois de um tempo, o público fica mais esperto — e, mais importante, surgem novas instituições para verificar a verdade real.
A chamada imprensa “amarela” por volta de 1890 foi equilibrada pelo surgimento de veículos respeitáveis como a Folha na grande era dos jornais. Quando surgiram os emails em massa, as “guerras de chamas” eram comuns. Mas as guerras diminuíram à medida que as pessoas aprenderam uma nova ética de cuidado ao escrever emails para um grupo. O primeiro século da imprensa na Europa foi marcado principalmente pela pornografia e por exageros absurdos nas notícias — sobre bruxas, por exemplo. Depois, surgiram editoras respeitáveis como a Aldine.
Regulamentação versus liberdade de expressão
Poderíamos recorrer ao Estado para regulamentar esse tipo de discurso. Mas é melhor não. A liberdade de expressão é um pilar fundamental da democracia. Em vez de buscar a regulamentação, devemos fomentar a educação midiática e a alfabetização digital, capacitando os cidadãos a discernirem a verdade da mentira. Isso inclui entender como funcionam as redes sociais, como identificar fontes confiáveis e como questionar informações antes de compartilhá-las.
Conclusão
Em suma, a evolução dos meios de comunicação traz tanto desafios quanto oportunidades. Enquanto os mentirosos encontram novas ferramentas, a sociedade também se adapta, desenvolvendo mecanismos para combater a desinformação. A responsabilidade recai sobre todos nós: educar, questionar e buscar a verdade em um mundo repleto de informações. A luta contra a mentira é constante, mas com o conhecimento e a conscientização, podemos construir um ambiente informativo mais saudável e verdadeiro.