O Brasil enfrenta um paradoxo digital: avança na conectividade das escolas públicas, mas ainda falha em transformar essa infraestrutura em motor de ascensão social. Embora essencial, a conectividade é apenas o ponto de partida. O verdadeiro desafio para políticas públicas e o terceiro setor é transformar o jovem da rede pública de consumidor passivo de telas em criador de tecnologia e agente de transformação econômica.
A mudança que o país busca não reside nos cabos, mas no que se constrói a partir deles. Para que a escola pública brasileira se torne um polo de inovação e desenvolvimento, é urgente adotar uma abordagem fundamentada em três pilares estratégicos.
Primeiro, o currículo precisa ser repensado para o século 21. Conectar a sala de aula é insuficiente se o conteúdo ignora o pensamento computacional e a cultura “maker”. A escola deve atuar como um laboratório de resolução de problemas reais, movendo o estudante da posição de usuário para a de desenvolvedor. É essa transição que entrega as chaves da economia digital ao jovem da periferia, permitindo que ele mude a lógica de navegar em algoritmos para criar soluções que impactem sua própria realidade.
Segundo, o investimento deve ser centrado no capital humano. O professor é o catalisador dessa transição, mas não pode ser deixado isolado. É necessária uma política de formação continuada que capacite o educador não apenas no uso instrumental de ferramentas, mas em sua aplicação pedagógica para estimular a criatividade e o empreendedorismo. Sem professores apoiados e infraestrutura robusta para atividades complexas, como análise de dados e programação, o potencial da tecnologia na educação permanece subutilizado. Além disso, é indispensável remunerar adequadamente os profissionais e evitar a sobrecarga de funções, garantindo que possam se dedicar plenamente à formação dos estudantes.
Por fim, é vital construir pontes sólidas com o mercado de trabalho e o ensino superior. A inovação aberta, que leva desafios reais das empresas para dentro da sala de aula, cria programas de mentoria e portfólios valiosos para a empregabilidade dos jovens. Essa conexão direta aumenta a relevância do ensino e, consequentemente, a empregabilidade.
A rede que o Brasil precisa construir nos próximos anos vai além da fibra óptica: é a rede da oportunidade real. O talento pode até ser distribuído de forma igualitária, mas o acesso às ferramentas de desenvolvimento ainda depende do CEP do estudante. Romper com esse determinismo geográfico é essencial para promover justiça social.
O futuro da educação brasileira precisa ser inclusivo e tecnológico para atuar como o motor de transformação que o país demanda. Garantir que cada jovem realize seu potencial não é apenas uma meta educacional, mas o único caminho para um desenvolvimento econômico sustentável e inclusivo.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Kelly Baptista foi “A Vida é Desafio”, de Racionais MC’s.