A primeira impressão é a de que estou em outro planeta ou que voltei ao passado remoto da Terra.
Do helicóptero da Marinha a visão é deslumbrante: o mar encosta em praias com pedregulhos escuros, de onde emergem montanhas vulcânicas colossais, assustadoras. Por trás delas, geleiras a perder de vista, sem limites discerníveis com as nuvens do horizonte. Lá longe, perdido na brancura do gelo infinito, um pico negro aflora como o dedo de um gigante descomunal. Não há uma árvore nem um fiapo de verde sequer, tudo é árido, branco, preto ou cinzento. Pela primeira vez me dou conta de que o branco tem inúmeras tonalidades.
A paisagem é a mesma que surpreendeu os navegantes ao chegarem à Antártica no século 19. Mesmo com a tecnologia de hoje, desembarcar aqui é tarefa complexa, que exige paciência, observação e oportunidade —como repetem os marinheiros—, porque as condições climáticas mudam a cada momento.
De repente, o céu se abriu e o reflexo na neve ofuscou meus olhos. Para compensar, o mar ficou azul-esverdeado, como se estivéssemos no Ceará. Um pouco à frente, um iceberg feito um barquinho de papel, com uma parede lateral imponente apoiada numa base quadrangular, ligada por um assoalho de vários metros à outra parede, mais baixa, e a um bloco triangular com vértice pontiagudo. O artista mais inspirado seria incapaz de criar tamanha beleza flutuante.
Dias depois, num bote inflável, nossa equipe de filmagem chegaria bem perto dele. A estrutura me fez sentir mais insignificante que uma formiga miúda: os dois paredões laterais tinham quase cem metros de altura; o pico lateral, uns 70. Sobre uma camada de gelo compactado, a plataforma de sustentação devia ter mais de mil metros quadrados. Quantas toneladas de gelo haveria na parte submersa daquele iceberg que nos dava as boas-vindas?
O helicóptero voou para a baía do Almirantado, na direção de uma montanha de base larga, decorada com ilhotas de neve. Junto à base, uma estrutura metálica de mais de 200 metros em forma de tubo, com janelas enfileiradas: a Estação Comandante Ferraz, carinhosamente chamada de “a casa do Brasil na Antártica”. Não imaginava edificação tão moderna naquele isolamento.
Junto à praia, tratores, guindastes, tanques de combustível, torres de comunicação, botes, quadriciclos de transporte, armazéns para depósito de equipamentos e mercadorias, caixas com materiais que entram e saem, postes de energia eólica e a pista de pouso para o helicóptero.
Vim para a Antártica em companhia do documentarista Luciano Cury, do diretor de fotografia Alexandre Cruz e do botânico da Unip Mateus Paciência para gravar um documentário sobre os projetos científicos desenvolvidos no continente, com o apoio decisivo da nossa Marinha.
Nos dias seguintes, filmaríamos nos laboratórios e nos postos avançados distantes da estação, nos dois navios que dão apoio à operação, percorreríamos caminhos de pedras soltas, seríamos levados em botes para outras praias da baía, ouviríamos a algazarra dos pinguins e entrevistaríamos marinheiros e cientistas que descreveriam com paixão o trabalho que os leva a passar meses longe da família.
Viajamos no verão antártico. Ironia dar esse nome a uma época com temperaturas ao redor de zero grau, em que ventos de 100 km/h ou mais podem rebaixar a sensação térmica para oito ou dez graus negativos. A Antártica é assolada por ventos que atingem 300 km/h durante o inverno e temperaturas que já chegaram a 80 graus negativos, as mais baixas registradas no planeta.
Entrar e sair do ambiente aquecido da estação impõe uma rotina repetitiva de veste-e-tira-roupa. Meias grossas, luvas, uma camiseta quente do tipo segunda pele, calça térmica colada às pernas, gorro de lã e casacos forrados. Por exigência da Marinha, quem vai sair nos botes é obrigado a calçar botas revestidas e o “mustang”, macacão de um laranja-espalhafatoso que protege, de fato. E que, segundo o botânico Mateus: “Ninguém fala nada, mas é para achar e devolver o corpo à família de quem cair na água gelada”, eventualidade em que a morte ocorre em poucos minutos.
Na próxima coluna, vamos falar dos trabalhos científicos e da complexidade da operação que a Marinha brasileira põe em prática para dar suporte aos pesquisadores neste continente de condições climáticas extremas.
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