O Muncab (Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira), no centro histórico de Salvador, recebeu em janeiro um acervo com 666 peças de artistas afro-brasileiros nesta que já é considerada a maior repatriação de obras de arte da história do Brasil.
As obras integravam o acervo Con/vida, coleção privada com obras de artistas do Nordeste brasileiro organizada ao longo de três décadas pela artista plástica Bárbara Cervenka e a historiadora da arte Marion Jackson, ambas americanas.
O conjunto abrange artistas de diferentes gerações e linguagens artísticas da produção afro-brasileira, com peças de 135 artistas, sendo 93 afro-brasileiros. Entre eles estão nomes como J. Cunha, Goya Lopes, Zé Adário, Lena da Bahia, Raimundo Bida, Sol Bahia e Manoel Bonfim.
O acervo foi apresentado nesta segunda-feira (25), em Salvador, em solenidade com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes, que celebrou a repatriação das peças como um marco para a memória cultural negra no país.
“Estamos falando de uma ação de repatriação histórica, que dá visibilidade à memória e ao legado de artistas brasileiros, em especial artistas afro-brasileiros que muitas vezes estavam esquecidos e negligenciados pela arte hegemônica”, afirmou a ministra.
A repatriação reafirma a política do governo federal, por meio dos ministérios da Cultura e das Relações Exteriores, de identificar bens culturais em posse de museus estrangeiros e governos de outros países que possam ser repatriados.
Foi o caso de um dos mantos do povo Tupinambá, que estava há três séculos em Copenhague, e foi cedido pela Dinamarca. A peça chegou ao Brasil em julho de 2024 e passou a integrar o novo acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
“Buscamos evitar a judicialização. Tentamos acordos com os museus e com os governos e conseguir que as próprias entidades estrangeiras doem de volta esses bens culturais brasileiros”, afirmou o embaixador Laudemar Aguiar, do Ministério das Relações Exteriores.
O acervo Con/vida foi construído por meio de dezenas de viagens de Bárbara Cervenka e Marion Jackson para o Nordeste brasileiro a partir de 1992. As obras foram majoritariamente adquiridas com os próprios artistas.
Desde então, as peças foram exibidas em museus dos Estados Unidos e Canadá. A exposição mais ambiciosa, batizada de “Bandidos e Heróis, Poetas e Santos: Artes Populares do Nordeste do Brasil”, percorreu 23 museus dos Estados Unidos ao longo de sete anos.
Bárbara Cervenka e Marion Jackson enviaram uma carta que foi lida nesta segunda-feira na cerimônia de apresentação do acervo em Salvador. Elas relembraram o fascínio que sentiram ao conhecer “a cultura rica e singular do Nordeste do Brasil” e justificaram a decisão de enviar as obras para o Brasil.
“Com o passar do tempo e à medida que nos aproximávamos da aposentadoria, sentimos que a coleção deveria retornar a um lar permanente, onde poderá ser visto, estudado e apreciado em seu próprio país, por sua própria gente”, afirmaram.
As obras chegaram a Salvador no dia 12 de janeiro, após um complexo processo logístico internacional, que envolveu embalagem especializada, adequação às normas de conservação museológica, trâmites alfandegários e transporte técnico especializado.
Desde então, o acervo tem passado por procedimentos técnicos de museologia, como laudagem e conservação preventiva. As peças incluem pinturas, esculturas, fotografias, xilogravuras, arte sacra, gravuras, ferramentas e estampas.
A expectativa é de que as obras repatriadas sejam expostas ao público no museu em uma exposição prevista para março. Também há conversas em curso para que a exposição e as peças do acervo circulem por outros museus, explica Cintia Maria, diretora do Muncab.
O Muncab foi criado em 2011 em iniciativa da Amafro (Sociedade Amigos da Cultura Afro-Brasileira), que reunia nomes como o poeta José Carlos Capinan, o artista plástico Emanoel Araújo, os historiadores Ubiratan Castro e Jaime Sodré, e os advogados Carlinhos Marighella e Antonio Menezes.
Capinan esteve à frente do museu até 2022, quando se afastou por problemas de saúde e passou o bastão para a gestão de Cintia Maria e Jamile Coelho, que começaram no Muncab como voluntárias.
Após três anos fechado, o Muncab, foi reaberto ao público em novembro de 2023, no mês da Consciência Negra, abrigando a exposição coletiva “Um Defeito de Cor”, baseada no livro homônimo de Ana Maria Gonçalves.

